“A Europa se construiu a caminho de Compostela…”

Com esta frase Goethe define a importância do Caminho de Santiago para a formação do mundo ocidental. Os peregrinos que vinham da Inglaterra, Itália, Alemanha e Países Baixos juntava-me na França e seguiam caminhos diversos que se encontravam próximo a Saint Jean-Pied-Port e seguiam até Santiago por uma única rota através dos Pirineus que se chama Caminho Francês.

Depois de caminhar tanto o peregrino chega a Santiago com a maior satisfação de ter cumprido uma meta em sua vida.  Ao chegar à praça e encontrar aquelas filas de espera para entrar na Catedral e passar a Porta Santa, que abre para visitação apenas nos anos Jacobeu, (ano consagrados ao Santo, quando o dia 25 de julho coincide com um domingo) a exemplo deste ano de 2010, causa um pouco de desânimo.

Assim que cheguei a Santiago, encontrei alguns amigos do Caminho na Praça do Obradoiro. Estavam desolados porque haviam ficado bastante tempo nas filas e não puderam entrar na Catedral e na Porta Santa, porque estavam ainda com as mochilas às costas. Além disto, ficariam apenas mais um dia na cidade e teriam que chegar cedo à fila do dia seguinte para assistir a missa do peregrino às 12:00 horas e ver o botafumeiro em ação. Os pontos altos de toda a peregrinação.

Eles não sabiam que a partir deste ano, a Arquidiocese de Santiago, voltou a uma antiga tradição: permitir que os peregrinos tenham acesso à Catedral no dia da chegada à cidade através da Porta do Paraíso, deixando as mochilas fora da Catedral, sem precisar entrar na fila do meio dia.

Hoje é o dia dedicado a Santiago e quem faz o Caminho nos anos santos, tem direito a algumas regalias: o perdão dos pecados, passar na Porta Santa, dar um abraço na imagem de Santiago e visitar o local onde está a tumba do Santo na Catedral.

Eu reservei esta data, consagrada a Santiago, para apresentar aos amigos que acompanham este blog uma filmagem que fiz da Missa do Peregrino e do espetáculo do botafumeiro.

Trechos do caminho atualizados:

De Lisboa a Pamplona – 09/06/2010

De Roncesvalle a Larrasoaña – 10/06/2010

Fatos interessantes – 10/06/2010

Larrasoaña a Pamplona – parte I – 11/06/2010

De Larrasoaña a Pamplona – parte II – 11/06/2010

Pamplona a Puente La Reina – 12/06/2010

Puente la Reina – 13/06/2010

La Reina a Estella– parte I – 14/06/2010

La Reina a Estella – parte II – 14/06/2010

Chegada em Estella – 14/06/2010

De Estella a Torres del Rio – 15/06/2010

Torres del Rio a Logroño – parte I – 16/06/2010

Torres del Rio a Logroño – parte II – 16/06/2010

Logroño a Nájera – parte I – 17/06/2010

Logroño a Nájera – parte II – 17/06/2010

Nájera a Santo Domingo de la Calzada – parte I – 18/06/2010

Nájera a Santo Domingo de la Calzada – parte II – 18/06/2010

Santo Domingo de la Calzada – 18/06/2010

Santo Domingo de la Calzada a Tosantos – 19/06/2010

Tosantos a Ages – parte I – 20/06/2010

Tosantos a Ages – parte II – 20/06/2010

Ages a Burgos – 21/06/2010

O caminho de Santiago de Compostela historicamente, desde os povos primitivos, deve ter sido uma rota de entendimento lingüístico. Acredito que muitos dialetos tenham sofrido influência mútua e foram se adequando ao linguajar do Caminho, mas alguma língua deve ter sido instituída pela igreja, para facilitar a comunicação entre peregrinos.

Nos dias atuais a comunicação acontece mais ou menos da mesma forma, mas com a predominância do espanhol que representa a maioria de peregrinos no Caminho de Santiago.

Devemos considerar que todos, ou quase todos, os serviços prestados (Albergues, Hotéis, Cafés, Bares e Restaurantes) são administrados por espanhóis e por isto, estou deduzindo que seja esta a língua dominante.

Falar apenas a língua materna para quem vai fazer uma peregrinação de reflexão absoluta deve ser uma boa pedida, mas temos que, pelo menos, usar os serviços de hospedagem e alimentação. Então, o portunhol vai nos socorrer nestas ocasiões e se estivermos na Galícia, não há problema, porque eles dizem que nosso português de brasileiro é muito parecido com o galego.

Acontece que quando nos hospedamos nos albergues de cada etapa sempre ficamos próximo fisicamente de pessoas de outros países e naturalmente surge uma conversa. O mesmo ocorre enquanto fazemos a caminhada, quando passamos por alguém, ou quando paramos nos cafés para um lanche.

Lembro de um fato interessante que ocorreu comigo no albergue de Pamplona. Eu estava sentado na minha cama beliche digitando um texto no notebook, enquanto aguardava que a confusão dos peregrinos nos preparativos para a caminhada do dia diminuísse. Estava cedo e eu havia me proposto fazer isto habitualmente, porque os dias são longos, com sol até as 22 horas no verão e não me agrada fazer as coisas correndo. Os peregrinos foram deixando o dormitório do albergue e fui ficando sozinho entretido nos meus pensamentos e digitando.

Surge uma moça, do nada, e começa a falar comigo, em inglês, perguntando: – que tipo de peregrino é você? E continua, dizendo que usar o notebook no caminho não é correto.

Ela tinha um ar severo na forma de falar e estranhando aquela atitude, falei que não estava entendendo o porque daquela observação. Aí, ela falou baixo em português, em tom de confidência, para si: – Quando tento fazer uma piada em inglês ninguém entende!

Falando em português, perguntei de onde ela era em Portugal.

Era de Lisboa e eu quis saber qual foi a piada. Ela respondeu que foi apenas uma brincadeira e rimos da situação. Despedimo-nos e ela saiu com sua mochila enquanto fui preparar a minha.

A partir deste episódio, decidi criar o “papeamento compostelano”, ou seja: A fusão de idiomas muito usada no Caribe. Eu e a Zoé viajamos pela China e Rússia sem ter tido problema algum de comunicação, então, não vai ser no Caminho de Santiago que vou me atrapalhar. Sigo meu caminho até Santiago conversando com meus colegas peregrinos numa mistura de espanhol, francês, inglês, italiano, catalão, galego, português e sinalêz.

Ultreia, buon viaje, buon camino, boa viagem!
.

“Não existe glória sem sofrimento”

Quando estava comprando algumas lembranças de viagem numa loja em Santiago de Compostela, vi esta frase estampada numa camiseta e lembrei-me das subidas e descidas das montanhas, dos escorregões, dos lamaçais, das chuvas, e das minhas bolhas nos pés. Eu andei cerca de 600 quilômetros durante 24 dias, numa média de 25 Kms/dia e queria o que?

No segundo dia de caminhada, quando cheguei ao albergue de Pamplona elas estavam lá, bem na lateral do pé direito e no peito do pé esquerdo, mas não me incomodaram, e cheguei inteiro a Pamplona. Então, procurei explicação para elas e não tive dúvida: meus calçados eram inadequados para as condições de caminho que havia enfrentado.

Fui até uma loja de departamento, comprei uma bota impermeável e meias apropriadas para caminhadas. Na farmácia comprei vaselina e algumas proteções que previnem bolhas e machucados nos pés.

– Listo? Perguntou o farmacêutico.

Estava pronto para o que der e vier. Melhor prevenir que remediar!

Eu havia esquecido das bolhas e preparava religiosamente os pés todas as manhãs antes da caminhada. Afinal são eles que estão me levando no “vocaminhando” e precisam de atenção especial.

Os conselhos para prevenir bolhas nos pés são poucos, mas ajudam bastante.

  • O calçado deve ser de boa qualidade, impermeável, usado e adaptado aos pés. Deve ter um número maior que o habitual e deve ser amaciado em pequenas caminhadas antes da peregrinação.
  • Usar meias apropriadas, grossas, do tipo coolmax (camadas duplas e não deixam os pés úmidos).
  • Untar os pés com vaselina todos os dias antes da caminhada e depois colocar as meias para evitar que fiquem roçando, o que provoca bolhas.
  • Passar álcool nos pés quando retirar as botas no final de cada etapa para evitar umidade e fungos.
  • Usar sandálias nos albergues e quando for passear nas cidades, para arejar os pés.

Tomando estes cuidados e pedindo a Santiago para protegê-lo das bolhas, chega-se a Compostela em perfeita condição física.

Só voltei a ter problemas com minhas bolhas em Vega de Valcarce, depois da tormenta que me ensopou todo e de ter carregado a mochila um bom tempo. Felizmente, no albergue estava o André, recém-formado em medicina e prestando serviço como voluntário no Caminho. Ele cuidou das minhas bolhas com agulha e linha para secarem,  e não tive mais problemas até o final da caminhada.

Falando em medicina…Aconselho ao peregrino ter um seguro de saúde para viajar e, para os imprevistos do caminho, anotar o número dos telefones de táxis que ficam pregados nos postes das cidades de parada.

Para os casos extremos de acidentes, o número das ambulâncias do caminho é o 061 e para emergência 112.

O ritmo da caminhada deve ser o que o corpo pedir, respeitando seus limites. Descansar quando sentir necessidade é muito importante, tanto quanto beber pequenos goles de água durante a caminhada para se manter hidratado.

Fazer alongamentos diários: rotacionar quadris, tornozelos e joelhos; alongar os tendões e fazer quaisquer outros exercícios que esteja habituado só traz benefícios para a saúde e prevenirá possíveis acidentes.

Há peregrinos de todo o tipo, inclusive  para alguns  estes conselhos não funcionam pois preferem percorrer o caminho descalços.

“Bom camiño!”

Reservei um post para este item que, acompanhado do chapéu, da capa, concha e cabaça, compõem a figura do peregrino tradicional. O cajado é o mais representativo dos símbolos da peregrinação, e até hoje é o mais usado no Caminho, todos o utilizam! Ele é tão significativo que alguns autores têm escrito livros que giram em torno do “bordón”, mais um nome para o tradicional cajado.

Na verdade o bastão é muito útil para caminhar, ajuda na subida e descida, livra-nos de tombos em terrenos escorregadios, mantém os braços elevados para uma melhor circulação sanguínea, serve para espantar os cães mais afoitos no caminho e depois do primeiro dia apegamo-nos a ele como uma imprescindível extensão dos braços que se apóiam ao terreno.

Quando estava cruzando o Alto do Erro entre Roncesvalles e Zubiri, com toda aquela chuva, mochilão às costas e calçado inadequado, fui salvo de alguns tombos e torções de tornozelos graças ao bastão que usava. Aquela arma do aeroporto em Lisboa. Lembram?

O bastão pode ser adquirido em quase todas as etapas do caminho e se por acaso você esqueceu, ou perdeu o bastão, basta pegar um galho resistente de uma árvore no bosque e seguir até o próximo local onde comprar outro. Os bastões mais comuns são feitos artesanalmente de madeira com uma espécie de espeto na ponta para cravar no solo, mas nas lojas de material esportivo encontram-se bastões sofisticados para “trekking” com amortecedores, alças para pendurar nos punhos, encaixe para os dedos e regulagem de altura.

Na escolha de um bastão, considere que não deve ser pesado, nem fino e nem grosso demais para que o encaixe das mãos fique confortável. Nos casos de bastão de madeira, devem ter uma altura maior que a sua e a parte superior encurvada é melhor que a reta para evitar que deslize e caia da mão do peregrino.  Finalmente, o uso de um ou dois bastões é critério de cada um, lembrando que dois bastões de madeira podem tornar-se um estorvo no caminho.

Uma vez, quando telefonei do Caminho para casa e falei com a Mariana, ela perguntou-me: – Pai, você emagreceu?

– Por quê? Respondi.

– Todas as pessoas que fazem o Caminho emagrecem.

Realmente eu emagreci 3 quilos, mas devido ao exercício das caminhadas diárias e não por causa de dieta alimentar.

Neste item o peregrino, com algum dinheiro no bolso, deve ficar atento para evitar comer ou beber em excesso.

Em cada trecho do caminho entre as duas cidades do percurso do dia, existem vários povoados em intervalos que não ultrapassam 5 quilômetros e cada um com seu café/bar a serviço dos peregrinos. Nestes locais, pode-se comer um “bocadilho” (sanduíches, “tortilhas”, empanadas, etc.) e beber café, sucos, refrigerantes, cervejas e vinho. Às vezes têm até cardápios com algo para comer (almoçar).

Então, todo cuidado é pouco para se manter o espírito e o físico de peregrino.

Uma boa alimentação diária é fundamental devido ao esforço para encarar as etapas do caminho e são recomendados alimentos sólidos, ricos em hidrato de carbono: pão, arroz, batata, bolacha, pastas (macarrão, lasanha, pizza), doces, barras energéticas, frutas e frutos secos, etc. Água, sucos e bebidas energéticas, são indispensáveis para uma boa hidratação no Caminho.

Muitas pessoas costumam fazer uma comprinha no mercadinho da cidade no dia anterior à caminhada e preparam um lanche reforçado para levar na mochila até algum lugar sombreado no campo, sobre a relva e, admirando a paisagem, fazem o almoço do dia. Isto é bastante econômico e dá um ar de peregrinação verdadeira, mas todo cuidado deve ser tomado para não sobrecarregar a mochila.

Vivi momentos de glória no Caminho quando participava das despesas para as compras das refeições, enquano caminhava com os amigos portugueses e espanhóis que adotavam esta prática. Com o grupo espanhol a Pilar preparava o jantar, “a cena”, na cozinha/refeitório dos albergues. Tive até um convite para o café da manhã com os amigos franceses Jean Paul e Edith. Um luxo que não vou esquecer.

Um item muito delicado para fazer o Caminho de Santiago de Compostela é a escolha da MOCHILA. Algumas vezes neste blog eu falei sobre a minha mochila e o peso de 14 quilos que carreguei nos primeiros dias. Enquanto caminhava com aquela carga toda nas costas, lembrava-me que tinha muitos dias e quilômetros para chegar até Santiago. Havia ainda o fator chuva, lama, subidas e descidas íngremes e a mochila começou a ser um drama.

Esta era minha primeira vez numa caminhada de longa distância e ficava lembrando de uma subida de 800 metros em cerca de 4 quilômetros que fiz em numa caminhada de 16 Kms com a Zoé, Ivan e Ana (meus irmãos) para chegar à base do Monte FitzRoy na Patagônia Argentina. A mochila era pequena, só com o lanche e bebidas, mas a subida foi bastante desgastante.

Então, primeiro conselho: mochila com mais de 10% do seu peso… ESQUECE!

O que deve ser levado na mochila tem que ser muito bem pensado porque vai ser uma caminhada de muitos dias, com subidas e descidas íngremes, vento forte, chuva, lama e, considerando outras  épocas do ano, frio e neve. Portanto, só de deve levar coisas que sejam essenciais para a sobrevivência no Caminho de Compostela.

Existem muitas histórias de peregrinos que logo nos primeiros dias tiram objetos da mochila para fazer doação, compram uma mochila pequena para transportar só o necessário do dia de caminhada e despacham a mochila de táxi para a cidade da próxima etapa. Vocês conhecem alguém que fez isto: EU!!! Outros, nos primeiros dias, separam o necessário para o Caminho e despacham o resto para Santiago ou de volta para a própria casa.

A lista de objetos a transportar na mochila varia de pessoa para pessoa, de sexo e da estação do ano. Eu fiz o Caminho no verão e vou dar uma idéia do que considero essencial para carregar nesta época, com o respectivo peso em gramas, que colhi de um site sobre o assunto:

Mochila (700), Saco de dormir (400), 2 camisetas (100), 2 calças com zíper no joelho para virar bermuda (300), 3 cuecas (114), Bermuda (90), 2 pares de meias grossas (90), 2 pares de meias finas (90), 1 jaqueta e calça de chuva (270),  1 casaco segunda pele (400), 1 par de botas e uma sandália (600), 1 toalha de microfibras (100), 1 litro de água (1000), Algum alimento de reserva (300), Pasta de dentes e fio dental (40),  Xampu  (60),  Bolsa com material de primeiros socorros (200), Gel para os músculos (60),  Protetor solar (50), Pequena lanterna (80), Carregador para o celular(160), Bolsa pequena para documentos (300),  Passaporte, passagens (200), Barbeador (50), Câmara digital (140), Carregador para a câmara (125), Bolsa para a câmara (35),  Celular (80), Caderno de notas e caneta (240), Guia do Caminho (152), Bastão(500)

Total, mais ou menos 7 kg. Igual a mochila do “Orá”

Observações sobre os itens imprescindíveis:

1.  Vaselina. Para untar os pés antes de iniciar a caminhada.

2.  Meias de qualidade. Procurar no mercado meias contra bolhas nos pés, apropriadas para longas caminhadas.

3.  Bota usada. É importante levar uma bota impermeável e que já tenha sido usada por um bom tempo, já amaciada.

4.  Sandálias havaianas. Servem para aliviar os pés da caminhada do dia e não circular descalço nos albergues.

5.  Mochila. Cuidado com a qualidade da mochila que deve ser leve, ficar bem adaptada ao corpo e ter as alças bem ajustadas para distribuir o peso, de preferência com estrutura de alumínio.

6.  Bolsa de primeiros socorros. Deve conter pomada antiinflamatória, agulha com linha, bandaid, algodão, esparadrapo, analgésico, antiácido etc

7.  Capa de chuva. Na Galícia chove todo o ano e o ano todo. Então, não esqueça uma capa de chuva, daquelas que podem ser dobradas e colocadas numa pequena bolsa, para ocupar pouco espaço na mochila.

8.  Alimentos para repor as energias. Barra de chocolate, frutas secas e banana.

9.  Água. Levar sempre a garrafa de 1litro para ir bebendo aos poucos e reabastecer nas fontes ou lanchonetes no caminho.

10.  Lanterna com leed. Para circular à noite no albergue e preparar a cama e mochila enquanto as luzes do albergue ainda estejam apagadas.

11.  Toalhas de microfibra, aquelas usadas pelos nadadores. Ocupam pouco espaço e secam muito rápido.

12.         Saco de dormir. Indispensável, ele é o seu cobertor e protetor dos colchões em muitos albergues.

13.         Um canivete tipo suíço. Descascar frutas, cortar pão, queijo…

14.         Papel higiênico ou guardanapos. Dispensa comentários.

15.         Tampão para os ouvidos. Para pessoas sensíveis ao ronco noturno.

16.         Pouca roupa e sabão. É melhor lavar nos albergues que levar a mochila cheia.

17.         Protetor solar. É importante leva um chapéu e um  protetor solar para o rosto e braços

É importante pesar a mochila com todos os itens, relacionar e avaliar se tudo o que está levando é

essencial e indispensável, lembrando que pode-se comprar alguma coisa nas cidades que passar.

Quando estava fazendo meus preparativos para a viagem, descobri em Brasília o grupo Peregrino da Paz, liderado pelo Manoel, que já fez o caminho 14 vezes em percursos diferentes. Quando conversamos durante uma reunião do grupo, ele já me entregou a credencial do peregrino, o que foi muito útil, porque, com ela pude hospedar-me no albergue de Pamplona.

Quando cheguei ao albergue recebi meu primeiro selo (carimbo), apesar de ter avisado à recepção que iniciaria meu caminho em Roncesvalle. Apesar disso, quando fui preencher a ficha de peregrino em Roncesvalle, eles entregam  nova credencial e com ela fiz todo o caminho até Santiago de Compostela.

A credencial do peregrino é um certificado oficial do Caminho de e serve para hospedagem nos albergue, conseguir descontos em bares, restaurantes, despachar bagagens etc. A maior importância da credencial é, no entanto, conseguir a Compostela ao final do caminho. Para isto, é importante selar (carimbar) a credencial nos albergues de hospedagens, nas paróquias e alguns bares e restaurantes do caminho. Lembrando que atualmente é recomendado carimbar duas vezes a credencial nos 100 km finais para a chegada a Santiago dos que fazem o caminho a pé, ou nos 200 Km para aqueles quem faz de bicicleta ou a cavalo.

Existem dois tipos de albergue, os públicos e os privados. Nos primeiros o valor da hospedagem para peregrinos gira em torno de E$ 6,00 e nos outros o valor varia bastante, dependendo das condições de conforto de cada um deles.  Em Ages eu paguei E$ 12,00 num albergue particular bem arrumado com alojamentos de 8 camas, banheiro independentes para homem e mulheres e café da manhã. A vantagem é o menor número de pessoas roncando, a sinfonia dos zíperes diminui a possibilidade de gente falando durante o sonho é menor. Neste caso, todos que estão no alojamento eram do grupo de amigos espanhóis e o Valentin roncava por todos. rsrsrsrs.

Nos restaurantes o menu do peregrino tem o preço estampado no cardápio que fica à entrada e varia de E$ 9,00 a E$ 12,00 para quem apresenta a credencial. O menu do peregrino é bastante variado e compreende normalmente uma entrada com 4 a 5 opções de prato (sopa, salada, massa, lula etc.). O prato principal com  número semelhante pode ser com carne, peixe “a la plancha”, polvo, bacalhau etc. A sobremesas é variada e a bebida pode ser vinho ou água mineral, ao gosto de cada um.

Ficar em albergue não é uma obrigatoriedade para os peregrinos, mas acho que as outras opções tiram um pouco do charme do caminho e fogem ao espírito da peregrinação. Em todas as cidades de parada recomendada para pouso existem, além dos albergues, hotéis, hostais e pensões para hospedagem. A escolha fica a critério de cada um, dependendo do grau de aceitação da mente e do esqueleto na hora da chegada.

Gente!

Tirei uma semana de férias para recuperar o esforço físico e mental da minha peregrinação pelo Caminho Francês de Santiago de Compostela e a partir de hoje, volto bem disposto para dar continuidade ao blog, incluindo em cada trecho histórias e fotos do caminho.

Para aqueles que pensam um dia enfrentarem esta caminhada, vou dar algumas informações básicas que poderão ajudar a preparar as mochilas e ir caminhar.

O planejamento de uma viagem para fazer o Caminho de Santiago de Compostela é um pouco diferente de qualquer outra que já empreendi. Tive que pesquisar bastante, em sites da internete e buscar informações bibliográficas disponível, porque precisava conhecer as histórias e experiências de outras pessoas, escolher o trajeto, quais infra-estrutura de apoio para hospedagem, alimentação e saúde, como chegar ao local de partida, a melhor época do ano, o que levar e como voltar para casa, é lógico!

De tudo isto, o mais importante é saber por que fazer o caminho, quais as motivações para se preparar uma mochila e fazer caminhadas diárias entre 20 a 30 quilômetros, dormir em albergues desconfortáveis compartilhando um só banheiro para homens e mulheres, ficar num dormitório com até 180 pessoas que nunca viu e escutar ronco a noite a fora, acordar obrigatoriamente às 6:00 horas e dormir às 22:00, enfrentar chuva, lama, calor, tormentas e chuvas de granizo como as que enfrentei, subir e descer montanhas, criar bolhas nos pés, expor-se a lesões físicas.

Uma vez decidido a fazer o Caminho de Santiago, pode consultar alguns sites:

http://www.mundicamino.com/

http://www.parou-saint-jacques.info/spip.php?article57

http://es.franceguide.com/Les-Chemins-de-Compostelle-du-pelerinage-a-la-randonnee.html?NodeID=1&EditoID=11789

http://www.jacobeo.net/

http://www.noticiascamino.com/

http://www.chemindecompostelle.com/

No meu caso, decidi pelo Caminho Francês conforme expliquei no início do blog e sobre ele posso prestar algumas informações.

O início do caminho deve ser em Roncesvalles na Espanha, mas alguns peregrinos preferem ir até St.Jean-Pie-de-Port na França, 22 quilômetros adiante, para cruzar a fronteira entre os dois países subindo os Pirineus.

Para quem sai do Brasil, o aeroporto mais próximo de Roncesvalles é o de Pamplona. Um aeroporto pequeno que não comporta aviões comerciais como estamos acostumados, mas para quem não se importa com isto, existem vôos em aparelhos pequenos, turbo-hélice a partir dos aeroportos de Lisboa e Madri.

As outras opções são os trens ou ônibus de Madri ou Barcelona para Pamplona.

Eu optei pelo vôo Lisboa/Pamplona num avião pequeno para 19 passageiros e descrevo em  De Lisboa a Pamplona – 09/06/2010

Diariamente sai um ônibus de Pamplona para Roncesvalles às 18 horascom uma hora de percurso. Quando saltei do ônibus em Roncesvalles havia uma pessoa oferecendo transporte até St. Jean numa camioneta tipo van, para os peregrinos que desejassem começar o caminho no dia seguinte a partir de lá. Não sei informar se isto é um acontecimento normal porque já estava decidido a partir de Roncesvalles. Esta decisão livrou-me de alguns aborrecimentos, porque as pessoas que encontrei e tinham vindo de St. Jean e reclamavam da falta de visibilidade das paisagens dos Pirineus devido ao tempo encoberto e o forte vento que chegou a jogar peregrinos ao chão com suas mocnilas.

O próximo passo é obter a credencial do peregrino.

Chego a São Paulo e de cara sinto a diferença entre a logística dos aeroportos da Europa e o nosso maior aeroporto, o de Guarulhos. Aquilo, perto dos aeroportos que transitei parece uma Babel e o ambiente é desagradável, escuro, acanhado para o número de passageiros circulando. O serviço da alfândega até que parece eficiente, mas o embarque para Brasília é uma tragédia de ineficiência, principalmente no serviço de inspeção de passageiros e das bagagens de mão. Um corredor acanhado com um amontoado de gente fazendo conexões para todos os estados do Brasil, um caos total, mas tudo bem, este é o país do jeitinho e vou em frente.

Na chegada a Brasília no desembarque,  fico mais de uma hora aguardando minha bagagem na esteira, com minha família do lado de fora aguardando a  saída dos passageiros, sem entender nada.

Uma funcionária da TAM, coitada, fica para lá e para cá tentando dar-me explicações sobre o atraso da bagagem. Enquanto isto assisto a tragédia que se desenrola do outro lado da vidraça com pessoas tentando fazer uma seleção de bagagem, que chegaram ao mesmo tempo, para serem colocadas nas diversas esteiras dos vôos indicados nas telas.

Eu penso qual seria a atitude de um ministro, responsável pelos serviços dos aeroportos no Brasil, se ele fizesse o mesmo trajeto que eu fiz. Infelizmente ministros não viajam como simples mortais!

Bom, amigos! Cheguei com um fuso horário de 5 horas a mais que significa hora de dormir, de acordar, das refeições e de descansar, diferente de todos em casa. Vou ter que dar um tempo para voltar à rotina, ou seja, tenho que tirar uns dias de férias desta viagem.

Nosso blog foi escrito e postado a oito mãos e quatro cabeças. A Zoé organizou, corrigiu, editou, ampliou e postou todas as notícias e fotos que consegui mandar pela internete. O Filipe ficou responsável pela atualização do Flickr e a Mariana é a revisora e crítica do blog.

Agradeço a todos que tiveram a paciência de acompanhar estas narrativas de viagem e com suas mensagens empurraram-me nos quase oitocentos quilômetros do Caminho Francês. Tudo bem que estou devendo cerca de duzentos quilômetros entre Burgos e Astorga para Santiago e vocês, mas prometo que muito em breve volto para a Espanha e completarei meu caminho.

O VOCAMINHANDO não se encerra com meu retorno e vou continuar atualizando com fotos e histórias do caminho que não pude enviar para a Zoé postar a tempo.

Vou dar informações e dicas sobre o Caminho Francês que servirão de ajuda para os próximos peregrinos que decidirem ir até Santiago de Compostela.

Ultreia!” – Saudação para dar ânimo aos antigos peregrinos.

“Bom camino” – Saudação atual.

Qualquer das duas serve…VOCAMINHANDO

Queridos amigos, cheguei à Brasília depois de fazer o caminho francês,  de quase 8oo Kms , partindo de Roncesvalle para Santiago de Compostela. Foram 26 dias especiais, cujas lembranças jamais serão esquecidas porque o caminho é um aprendizado para toda a vida.

O vôo de retorno foi longo, saindo de Santiago/Barcelona/Frankfurt/São Paulo/Brasília, um percurso de 24 horas, mais sacrificante que a descida de Roncesvalle nos Pirineus ou a subida de O Cebreiro na Galícia.

Eu tenho por hábito ver sempre o lado positivo das coisas, mesmo que ela seja uma “M” e procuro tirar proveito da situação, porque acredito que nada acontece por acaso. Então, não poderia deixar essas 24 horas passarem indiferentes às minhas crenças e aproveitei para  refletir sobre a caminhada que fiz até Compostela.

Confesso ter tido  receio de encontrar pela frente um outro avião “Beechcraft”, igual ao que me levou de Lisboa a Pamplona, porque em minha passagem estava escrito que o vôo Santiago/Barcelona teria duração de 2:35 hs. Um engano que me fez ligar para casa e pedir para a Zoé tentar a troca dos meus vôos de retorno, mas que não foi possível pela TAP. Então, como de praxe, entrego meu destino a Santiago e embarco naquele trecho num “Airbus A320” com o dia  ensolarado, céu azul e sem nuvens. Céu de brigadeiro, perfeito! Meu assento é o da janela e vou apreciando a bela paisagem dessa travessia da Galícia no Atlântico, até a Catalunha no Mediterrâneo.

O trajeto Barcelona/Frankfurt foi uma repetição das condições do vôo anterior, só que agora sobrevoando o Mar Mediterrâneo. Em seguida vejo os Alpes como nunca havia visto antes:  coberto de neve, num lindo dia de céu azul, com algumas cidades encravadas nos vales. A paisagem me inspirou tanto que pensei no meu projeto de fazer o circuito que contorna o Mont Blanc.  Saio dos meus devaneios e faço algumas fotos aéreas daquele trecho dos Alpes, antes do pouso.

No aeroporto de Frankfurt o vôo está um pouco atrasado, acho que de propósito, para que nós, passageiros, terminássemos de assistir o jogo do Uruguai versus  Holanda. Depois do embarque, passo longas 11 horas num Boeing 747, na classe econômica, com as pernas encostadas na poltrona da frente, sem espaço para mudar de posição! Tento relaxar e esquecer a minha situação de quase imóvel,  pois não posso ficar fazendo tantas exigências, pois  afinal, quem faz o Caminho de Santiago de Compostela no esquema  mochileiro, não pode dar-se ao luxo de viajar na primeira classe, a menos que ocorra um milagre de Santiago… Fica para a próxima, ele me garantiu!